domingo, 26 de maio de 2013

Uma rara entrevista com o mestre Stephen King

Entrevista da revista Parade com Stephen King, publicada no dia 25 de maio de 2013.




“Escrevi 1.500 palavras nesta manhã. Cinco páginas por dia, normalmente esse é o saldo. É algo obsessivo-compulsivo mais do que qualquer outra coisa. Morro de medo de que se eu abandonar isso, a cor se perca; vai começar a parecer uma coisa falsa“. — Stephen King



PARADE: A Hard Case Crime publica romances em brochura, tanto de novos trabalhos quanto novas edições de thrillers dos anos 50 e 60, juntamente com capas com arte retrô. Foi por isso que você ofereceu Joyland para eles (cuja história acontece décadas atrás)?



Stephen King: Sim. Eles me lembram os livros que eu lia enquanto começava a ganhar experiência, por assim dizer, aqueles que estavam nas prateleiras de brochuras da farmácia Roberts, em Lisbon Falls, Maine, na época que eu estava no colegial. Eu pensei, Joyland é perfeito para a Hard Case Crime. Não é um livro extenso ou gordo. Ele possui um mistério, mas é de outro nível também, onde é tipo uma história sobre amadurecimento, sobre este rapaz que está tentando se colocar de pé após ter o coração partido. E por ser tão retrô, eu disse para mim mesmo, “Vamos vendê-lo como um livro. Vamos segurar essa coisa de e-books”. Audiobook tudo bem, mas se as pessoas quiserem lê-lo, que sigam para a livraria e o comprem.

PARADE: Joyland tem elementos sobrenaturais, mas não é um romance de terror.


Stephen King: Eu fui rotulado como escritor de horror, e sempre disse para as pessoas, “Não me importo com como você me chame enquanto os cheques não voltarem e a família esteja alimentada”. Mas eu nunca me vi assim. Eu só me vi como um romancista. Com Joyland, eu quis fazer uma tentativa com o gênero do mistério, do tipo “quem é o assassino?”.”

Eu sou um escritor situacional. Dê-me uma situação, como um escritor se envolvendo num acidente de carro, quebrando a perna, sendo sequestrado por sua fã número um, mantido em cativeiro e forçado a escrever um livro — todo o resto vai florescer daí. Não se precisa realmente trabalhar uma vez que você tem a ideia. Tudo o que se tem a fazer é uma espécie de preceito interior. Mas um romance como Joyland precisa ter algo que carregue a história. Tem de haver uma linha de lógica que leve o leitor a saber que é o assassino. É quase como construir palavras cruzadas.


"Eu tenho digitado como um escritor de horror ... mas eu nunca me vi dessa forma."

PARADE: Que outros livros voce acha que nossos leitores gostarão de ler neste verão?

Stephen King: O novo de Kate Atkinson, Life After Life, é uma leitura incrível. E eu leio uns de Agatha Christie no verão; eu amo esses. Também há um de mistério “hard-boiled” chamado Gun Machine, de Warren Ellis. É claro, eu tenho que mencionar o novo romance de meu filho Owen,Double Feature, que é muito, muito engraçado, e é um livro adorável. E meu filho Joe [Hill] tem um novo livro sobre vampiros chamado NOS4A2. Ele te faz ficar grudado [nas páginas] e o mantém assim.

PARADE: Ouvi dizer que seus filhos mostram seus trabalhos para a mãe [a romancista Tabitha King] antes de serem publicados. Eles também mostram para você?

Stephen King: Eles mostram para nós dois, mas eles levam o criticismo da mãe muito, muito a sério. Eu também mostro minhas coisas a ela. Ela diz, “Você já fez isso antes. Isto é uma droga. Isto é idiota”. Tabby não pega leve, e por mim tudo bem. [Meus filhos] dedicaram seus primeiros romances a ela, e isso quer dizer muito. Ela mesma é uma boa escritora, embora eu não consiga convencê-la a sair do jardim e escrever outro livro.

PARADE: Quando seus filhos eram jovens, você lia para eles?

Stephen King: Oh, sim. E eles liam para mim, porque eu pagava 10 dólares por fita cassete. Eles liam para mim livros que eu empurrava para eles. Eu acho que minha filha, Naomi, deve ter lido para mim todos os romances de Wilbur Smith, um após o outro. Quando ela tinha 14, ela leu para mim um livro chamado Raven, sobre o massacre de Jonestown. Sabe, o do Reverendo Jim Jones? O que bebeu Kool-Aid?

PARADE: Espere um minuto — você fez uma garota de 14 anos ler um livro sobre o culto suicida de Jonestown?

Stephen King: [risos] Sim, com certeza. No final, ela disse, “Pai, eca”. Quando Naomi tinha 5 e Joe tinha 3 — Owen não era nascido ainda — Tabby dizia, às vezes, durante a tarde, “Não consigo mais lidar com isso, Steve. Eu vou me deitar”. Estas crianças destruiam a casa, e eu tentava pensar em algo para fazer com elas. Um dia, completamente desesperado, eu comprei alguns gibis do Homem-Aranha. Eu não esperava muito, mas eles ficaram loucos com aquilo. Todos eles já sabiam ler desde cedo. Owen e Naomi já liam aos 2 anos, ou coisa assim. Eles foram incríveis nisso.

PARADE: Você acha que ler tem a mesma importância para as crianças de hoje?

Stephen King: Não, com certeza não. Eu acho que é porque elas são orientadas pelas telas [de TVs, computadores, smartphones]. Mas elas leem — garotas, em particular, leem muito. Elas têm uma tendência a gostar de romances paranormais, Crepúsculo e coisas assim. E então isso começa a desaparecer, porque outras coisas tomam seu lugar, como as irmãs Kardashian.

Eu fiz alguns seminários sobre escrita no Canadá ano passado com alguns garotos do ginásio. Elas são crianças brilhantes; todas têm computadores, mas não sabem soletrar. Porque o auto-corretor não vai ajudar se você não souber diferenciar through (através) de threw (vomitar — ambas tem a mesma pronúncia). Eu lhes disse, “Se vocês puderem ler no século 21, vocês são os donos do mundo”. Porque você aprende a escrever lendo. Mas há tantos outros atalhos que atrapalham a consciência; isso me deixa apreensivo.



Michael Edwards
King, segurando uma cópia do seu novo romance, "Joyland", foi fotografada em abril em sua propriedade na Flórida. (Michael Edwards)

PARADE: Falando sobre telas, que programas de TV você assiste atualmente?

Stephen King: “Justified”, “Bates Motel”, “The Walking Dead”. O melhor programa do ano é “The Americans”. Eu não assisto “Mad Men”. Acho que é basicamente uma novela, e se eu quiser uma novela, eu assisto “Revenge”. Esse seriado é doido, mas eles têm ótimas roupas.

PARADE: Você disse que não tinha certeza se seria popular além de seu tempo. O que você quis dizer?

Stephen King: Bem, não dá pra se preocupar realmente com isso. Primeiramente, eu terei morrido, então não é como se eu estivesse sentado numa plateia vendo o que as pessoas abaixo estariam pensando sobre o que eu escrevi. Fantasia tem mais chance de durar do que as outras coisas. O Hobbit e os livros de Nárnia, eles parecem passar de pai para filho, de mãe para filha. Porque acontecem num mundo de fantasia, eles podem permanecer relevantes. Então, talvez coisas como ‘Salem e O Iluminado possam durar, e o livros d’A Torre Negra. Eu não sei.

Alguém perguntou a Somerset Maugham sobre seu lugar no panteão de escritores, e ele disse, “Estou na primeira fila do medíocre”. Eu sou meio que assombrado por isso. Você faz o melhor que pode. A ideia de posterioridade para um escritor é como veneno, não acha?

PARADE: Neste ponto de sua carreira, qual é a principal razão de se levantar e compôr suas 1.500 palavras diárias?

Stephen King: A tarefa principal é ainda poder entreter as pessoas. Joyland realmente decolou quando o velho, que é o dono do parque, disse, “Nunca se esqueça, nós vendemos diversão”. É isso que devemos fazer—escritores, cineastas, todos nós. É por isso que eles nos deixam ficar no playground.


Fonte - Parade 

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